Há um momento que qualquer motociclista reconhece. A estrada deixa de ser o caminho entre dois sítios e passa a ser a razão de ter saído de casa. Não acontece na autoestrada, nem nas nacionais retas do interior. Acontece quando o traçado, a paisagem e o ritmo coincidem durante tempo suficiente para a condução deixar de exigir esforço e começar a dar prazer.
As cinco estradas que mais justificam uma viagem de moto em Portugal são a N222 no Douro, a N2 entre Viseu e o Peso da Régua, a N339 na Serra da Estrela, a N103 entre Braga e Chaves e a estrada da serra da Arrábida. Cada uma pede uma época e uma hora diferentes. Acertar nisso conta tanto como a escolha da estrada.
Portugal tem mais estradas assim do que o tamanho do país faria supor. O relevo do Norte e do Centro, as serras perto da costa e uma rede de nacionais antigas, desenhadas antes das variantes e dos túneis, fazem com que poucas horas de condução separem vales, planaltos e mar.
N222: o Douro visto ao nível do rio
O troço entre o Peso da Régua e o Pinhão tem 27 quilómetros e cerca de 93 curvas. Em 2015, um estudo da Avis que media a relação entre retas e curvas colocou-o em primeiro lugar entre 25 estradas de todo o mundo, à frente da Big Sur, na Califórnia. Desde então, é conhecido como “a melhor estrada do mundo para conduzir”.
A fama é merecida. A estrada segue a margem do rio, entre socalcos de vinha, e encadeia curvas com uma regularidade rara, sem retas que quebrem o ritmo. É uma estrada que recompensa a condução fluida mais do que a velocidade.
Há duas épocas ideais. As vindimas, de meados de setembro ao início de outubro, quando a vinha muda de cor. E a primavera, com as amendoeiras em flor. Nas vindimas, conta com tratores e carrinhas carregadas à saída das curvas.
N2: a estrada que passa à porta, em Viseu
A N2 liga Chaves a Faro em cerca de 739 quilómetros e tornou-se uma rota por si só. Fazer a estrada completa é um projeto de vários dias. Se tiveres só um, o troço entre Viseu e o Peso da Régua resume bem o que ela tem de melhor, e começa a poucos minutos da Dinâmica.
Saindo de Viseu, a estrada passa por Castro Daire e sobe a encosta da serra de Montemuro até perto dos 1.000 metros, no Mezio, com curvas encadeadas e pouco trânsito. Depois de Lamego, desce em direção ao Douro e chega à Régua, precisamente onde começa a N222. As duas estradas fazem-se no mesmo dia sem pressa.
A serra tem nevoeiro frequente no outono e no inverno, sobretudo de manhã. Nesses meses, o início de tarde é a janela mais segura.
N339: a subida à Torre pede máquina e condutor preparados
A N339 liga a Covilhã a Seia passando junto à Torre, a 1.993 metros, o ponto mais alto de Portugal continental. É a estrada mais exigente desta lista. Não pelas curvas, mas pelas condições.
Em poucos quilómetros, a temperatura pode descer muito face ao vale, e o vento no planalto é forte e lateral. Entre outubro e abril, a neve fecha com frequência os troços entre os Piornos e a Torre e entre a Torre e a Lagoa Comprida. Há anos em que os cortes se prolongam até março e abril.
A melhor época vai de junho a setembro. Mesmo em agosto, leva uma camada extra e luvas de meia-estação. A descida é longa e contínua, e põe os travões à prova. O artigo sobre preparar a moto para uma viagem longa explica porquê.
N103: o Barroso para quem prefere estrada vazia
Entre Braga e Chaves, a N103 passa pela Póvoa de Lanhoso, contorna o Gerês pelo lado nascente e entra no Barroso, no concelho de Montalegre. Pelo caminho ficam as albufeiras da Venda Nova e do Alto Rabagão, aldeias de granito e um traçado que alterna curvas apertadas junto às barragens com troços largos e abertos no planalto. Depois de Boticas, desce até Chaves.
É a estrada desta lista que mais se parece com uma viagem longe de casa. A parte central atravessa zonas pouco povoadas: atesta em Braga e planeia a paragem seguinte antes de saíres.
A primavera é a melhor altura. O verde está no auge, os rios levam água e as temperaturas no planalto são amenas.
Arrábida: pouca distância, muita paisagem, e a moto tem vantagem
A estrada da serra da Arrábida, a EN379-1, é a mais curta da lista e a mais fácil de encaixar num fim de semana a partir de Lisboa. Corre pela encosta com o mar logo abaixo e tem algumas das vistas costeiras mais bonitas do país. É estreita, tem muretes baixos e faz-se devagar, que é como vale a pena.
No verão, a Câmara de Setúbal aplica o programa “Arrábida Sem Carros”. Costuma vigorar de junho a meados de setembro, todos os dias das 7h00 às 20h00, e proíbe os carros particulares no acesso às praias entre o cruzamento do Pinheiro e Galapos. As motos de duas e três rodas podem circular. Confirma as datas de cada ano antes de ires.
Fora da época balnear, ao início da manhã, a serra é praticamente tua.
Motos de estrada na Dinâmica
Sport touring com malas laterais de série, suspensão eletrónica e proteção para dias inteiros de estrada. Concessionário oficial Yamaha em Viseu.
Sport heritage com o motor de três cilindros, para quem quer as curvas da N222 e da N2 sem bagagem. Test-ride na loja.
Antes de sair: o que confirmar para cada estrada
- Combustível: no Barroso e na Serra da Estrela, atesta antes de subir e sabe onde está o posto seguinte.
- Meteorologia de montanha, e não só do ponto de partida. Na Torre e em Montemuro o tempo muda em minutos.
- Estado da estrada: a N339 fecha com neve e a Arrábida tem regras de acesso no verão.
- Camada extra e luvas de reserva para as estradas de altitude, mesmo no verão.
- Pneus com a pressão certa para a carga que levas, sobretudo se fores com passageiro.
- Hora de partida: as primeiras horas da manhã têm menos trânsito e melhor luz.
“Estas estradas estão sempre cheias” depende da hora a que chegas
É a objeção mais comum e tem fundamento. A N222 num sábado de agosto à tarde, ou a Arrábida num domingo de julho, são filas de carros com pouco espaço para aproveitar a estrada.
Mas o trânsito nestas estradas é muito concentrado. Chega às horas de almoço, aos fins de semana de verão e aos dias de evento. Uma partida às oito da manhã num dia de semana, ou um domingo de outubro, mudam completamente a experiência.
Na prática, a escolha da estrada resolve metade da viagem. A outra metade resolve-se com o calendário, o despertador e uma moto preparada. Antes de uma saída longa, a oficina da Dinâmica, em Viseu, verifica pneus, travões e corrente. Se estás a pensar em trocar de moto, vê a gama de motos Yamaha, do sport touring à aventura.


