Há bicicletas que passam anos na garagem com os pneus vazios. Quase nunca é porque o dono deixou de gostar de pedalar. É porque a bicicleta foi escolhida para uma vida que não era a dele: uma BTT de suspensão total para quem anda em ciclovias, uma bicicleta de estrada para quem queria passear ao fim de semana, um modelo bonito num tamanho errado.
Escolher a bicicleta ideal resume-se a três perguntas: em que piso vais andar a maior parte do tempo, que distâncias queres fazer e em que posição te sentes confortável. As respostas indicam o tipo de bicicleta. Depois, o tamanho do quadro decide se a vais usar ou não.
A escolha de uma bicicleta começa pela forma como a vais usar, e não pelo modelo. As diferenças entre tipos de bicicleta são grandes, e cada uma é muito boa numa coisa e média nas outras.
A bicicleta certa é a do terreno onde andas 80% das vezes
O erro mais comum é escolher para a exceção. Quem imagina descer trilhos de montanha uma vez por ano compra uma BTT de suspensão total e passa os outros 51 fins de semana a pedalar em asfalto com uma bicicleta pesada e lenta nesse piso.
A regra prática é escolher para o uso mais frequente e aceitar algum compromisso no resto. Se 80% das saídas são em estrada e ciclovia, a bicicleta deve ser boa em estrada e ciclovia. Os trilhos ocasionais fazem-se com mais cuidado, ou com uma bicicleta alugada.
Estrada, gravel e BTT: o piso decide mais do que a velocidade
A bicicleta de estrada é feita para asfalto. É leve, tem pneus finos e uma posição inclinada que reduz a resistência ao vento. É a mais rápida e eficiente em estrada, e a menos tolerante fora dela.
A gravel nasceu para o piso misto. Tem guiador de estrada, mas pneus mais largos e uma geometria mais estável. Faz estrada quase tão bem como uma bicicleta de estrada e aguenta caminhos de terra, ecopistas e estradas florestais. Para muita gente, é a bicicleta mais versátil que existe.
A BTT é para trilhos. Tem pneus largos com rasto, suspensão e mudanças pensadas para subidas fortes. Em asfalto, é a mais lenta das três.
A bicicleta de turismo ou urbana é para distâncias curtas e uso diário. Tem uma posição direita, que dá conforto e boa visão do trânsito, e muitas vezes guarda-lamas, porta-bagagens e iluminação.
Rígida ou suspensão total: quanto tempo passas a descer?
Dentro das BTT, a grande decisão é entre uma bicicleta rígida, com suspensão só à frente, e uma de suspensão total. A suspensão total dá mais controlo e conforto em descidas técnicas e terreno partido. A rígida é mais leve, mais eficiente a subir, mais simples de manter e mais barata pelo mesmo nível de componentes.
Se andas sobretudo em estradas florestais e trilhos sem grandes dificuldades técnicas, uma rígida é quase sempre a escolha mais acertada. A suspensão total começa a fazer diferença quando as descidas são a razão de saíres de casa.
A elétrica não é para quem não quer pedalar
Numa bicicleta elétrica, o motor só ajuda enquanto pedalas. A regra europeia de homologação limita a potência nominal contínua a 250 W, e a assistência tem de desligar quando deixas de pedalar e ao chegar aos 25 km/h. O Código da Estrada português trata-as como velocípedes, ou seja, como bicicletas. Continua a ser exercício. A diferença é que o esforço passa a ser escolhido por ti, e não pelo terreno.
Isso muda quem consegue pedalar e onde. Uma subida que afastava alguém da bicicleta deixa de ser um obstáculo. Um casal com níveis de forma diferentes consegue fazer o mesmo percurso. Uma deslocação de 12 quilómetros para o trabalho faz-se sem chegar transpirado.
Há elétricas para todos os usos: urbanas, de turismo, de montanha e de estrada ou gravel. A escolha segue as mesmas perguntas de qualquer outra bicicleta. A autonomia da bateria e o peso somam-se à lista.
O tamanho do quadro importa mais do que o modelo
Uma bicicleta excelente no tamanho errado é uma bicicleta desconfortável. Um quadro grande demais estica as costas e cansa os ombros. Um pequeno demais encolhe as pernas e força os joelhos.
Os fabricantes indicam o tamanho de quadro por altura do ciclista. É um bom ponto de partida, mas não substitui experimentar. O comprimento das pernas e dos braços varia muito entre pessoas com a mesma altura. Na loja da Dinâmica, em Viseu, podes experimentar as bicicletas KTM em vários tamanhos, e o ajuste do selim, do avanço e do guiador completa o que a tabela não resolve.
Duas KTM para começar a escolher
A gravel de carbono com guiador de estrada e pneus largos: asfalto, ecopistas e estradas florestais com a mesma bicicleta.
E-MTB rígida com motor Bosch: subidas que afastavam da bicicleta deixam de ser obstáculo. Vários tamanhos na loja.
Perguntas a responder antes de ir à loja
- Em que piso vais andar na maior parte das saídas?
- Que distância fazes normalmente, e qual é a maior que queres fazer?
- Vais usar a bicicleta para te deslocares, para treinar ou para passear?
- Há subidas fortes no teu percurso habitual?
- Onde vais guardar a bicicleta, e tens de a subir escadas?
- Qual é o orçamento, incluindo capacete, luzes e cadeado?
“Começo com uma barata e depois logo se vê” costuma sair caro
É um raciocínio compreensível. Antes de gastar, faz sentido saber se se vai gostar. O problema é que as bicicletas muito baratas são, em regra, pesadas, têm travões fracos e mudanças imprecisas e desafinam depressa. Tornam o ciclismo mais difícil do que é, e é fácil concluir que o problema é a modalidade.
Uma bicicleta de gama de entrada de uma marca séria custa mais, mas funciona bem durante anos, tem peças de substituição e mantém valor em segunda mão.
Na prática, o investimento certo é o que te põe a pedalar com regularidade. E isso depende menos do preço do que de acertar no tipo e no tamanho. Se tiveres dúvidas entre dois tipos, fala com a equipa da Dinâmica: uma conversa sobre como pedalas resolve mais do que qualquer ficha técnica.


