Manutenção da bicicleta: o essencial para prolongar a performance

A maior parte das bicicletas não avaria. Degrada-se. As mudanças passam a hesitar um pouco, os travões pedem um pouco mais de força, a pedalada fica um pouco mais pesada. Nenhuma destas mudanças é notória de uma semana para a outra. Ao fim de um ano, a bicicleta é outra.

Em resumo

A manutenção essencial de uma bicicleta resume-se a quatro sistemas: a transmissão (corrente, cassete e pratos), os travões, os pneus e os rolamentos. Os três primeiros verificam-se em casa em poucos minutos. Os rolamentos e as suspensões precisam de oficina, com uma periodicidade que depende de quanto e onde pedalas.

Bancada de oficina com corrente de bicicleta, escova, lubrificante e chaves
Uma corrente limpa e trocada a tempo é a manutenção com melhor retorno de toda a bicicleta.

O ciclista habitua-se à degradação ao mesmo ritmo a que ela acontece. Só dá por ela quando experimenta uma bicicleta nova, ou quando uma peça gasta arrasta outras duas consigo e a reparação sai três vezes mais cara do que a manutenção teria custado.

Uma corrente suja gasta três peças de uma vez

A corrente é a peça que mais trabalha e a que mais sofre com o descuido. Com o uso, a sujidade mistura-se com o lubrificante e forma uma pasta abrasiva que desgasta os pinos por dentro. A corrente alonga, e uma corrente alongada deixa de encaixar bem nos dentes da cassete e dos pratos, que começam a gastar-se ao mesmo ritmo.

É por isso que a troca de corrente a tempo é a manutenção com melhor retorno de toda a bicicleta. A Park Tool, referência em ferramentas de oficina, avisa que usar uma corrente além do limite de desgaste gasta prematuramente a cassete e os pratos. Uma corrente custa uma fração desse conjunto. Trocada a tempo, a cassete e os pratos aguentam várias correntes. Tarde demais, gasta-se tudo de uma vez.

A verificação faz-se com um medidor de desgaste, uma ferramenta barata que se encaixa na corrente e indica quanto está alongada. Os limites de troca indicados pela Park Tool são 0,5% nas transmissões de 11 ou mais velocidades e 0,75% nas de 10 ou menos. A limpeza deve ser feita sempre que a corrente estiver visivelmente suja, e a lubrificação depois de cada limpeza ou saída à chuva, com o excesso limpo com um pano. Lubrificante a mais atrai mais sujidade.

Travões: a sensação no manípulo diz quase tudo

Nos travões de disco hidráulicos, um manípulo que vai mais longe do que era habitual, ou que se sente esponjoso, indica ar no circuito ou pastilhas gastas. Nos travões mecânicos e de aro, pode indicar cabos esticados ou pastilhas no fim.

A Shimano indica que as pastilhas de disco devem ser trocadas quando o material de atrito chega aos 0,5 mm. Abaixo disso, a base metálica toca no disco e danifica-o. Um guincho constante ao travar, ou uma travagem que perdeu força, são sinais de que é altura de verificar.

As pastilhas contaminadas com óleo ou lubrificante de corrente também perdem eficácia de forma permanente. Ao lubrificar a corrente, protege o disco traseiro.

Mão com luva a verificar a pinça e as pastilhas de um travão de disco de bicicleta
A Shimano manda trocar as pastilhas quando o material de atrito chega aos 0,5 mm.

Os pneus perdem pressão mesmo quando a bicicleta está parada

Todos os pneus perdem ar com o tempo, mesmo sem furo. Segundo a Schwalbe, uma câmara de ar perde normalmente cerca de 1 bar por mês, e mais depressa quanto mais alta for a pressão. Uma pressão baixa torna a pedalada mais pesada, aumenta o risco de furos por beliscão e reduz a precisão em curva. A Schwalbe recomenda verificar a pressão pelo menos uma vez por mês.

A pressão recomendada vem impressa no flanco do pneu, em intervalo. O valor certo dentro desse intervalo depende do teu peso, do piso e da largura do pneu. Mais peso e asfalto pedem valores mais altos. Terra e pneus largos pedem valores mais baixos.

Verifica também o piso e os flancos. Cortes, fissuras na borracha ou a tela visível são razão para trocar o pneu, independentemente dos quilómetros.

Rolamentos e suspensões são trabalho de oficina

Os rolamentos da caixa de direção, do eixo pedaleiro e das rodas não dão sinal até estarem bastante gastos. Uma folga na direção quando travas com a roda da frente, ou um ruído ritmado ao pedalar, são os sintomas mais comuns.

As suspensões têm intervalos de manutenção definidos pelo fabricante, em horas de uso. A RockShox recomenda a manutenção das bainhas inferiores da suspensão a cada 50 horas e uma revisão completa a cada 100 ou 200 horas, conforme o modelo. A Fox recomenda uma revisão completa a cada 125 horas ou uma vez por ano. Nas bicicletas elétricas, soma-se a verificação do motor, dos contactos da bateria e a atualização do software.

Para a maioria dos ciclistas, uma revisão completa por ano chega. Quem pedala muito, ou anda com frequência em lama e chuva, deve encurtar os intervalos, como os próprios fabricantes de suspensões recomendam.

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A verificação de cinco minutos antes de cada saída

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“A bicicleta anda bem, não precisa de nada” é exatamente o problema

Faz sentido não mexer no que funciona. Mas é o que torna a manutenção de uma bicicleta enganadora. Quando a corrente começa a saltar ou o travão deixa de travar, o desgaste já foi longe. A corrente alongou-se e levou a cassete. A pastilha acabou e riscou o disco.

A manutenção preventiva não serve para corrigir problemas que se sentem. Serve para evitar os que ainda não se sentem, e que custam mais quando se sentirem.

Na prática, cinco minutos antes de sair e uma revisão por ano mantêm uma bicicleta a render como no primeiro dia durante muitos anos. A revisão anual, com rolamentos e suspensões, faz-se na oficina da Dinâmica, em Viseu.

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